O uso de celular e o desenvolvimento cognitivo em crianças

Crianças celular

Na década de 80, os computadores ainda estavam restritos aos laboratórios e grandes empresas. Em 2007, 93% das crianças norte-americanas entre 6 e 9 anos tinham acesso a um celular. O acesso a novas tecnologias e aparelhos eletrônicos cresce num ritmo acelerado também no Brasil e atualmente as crianças estão expostas a esse universo cada vez mais cedo e de forma constante.

É inegável que os avanços tecnológicos podem trazer benefícios socioeconômicos em diversas áreas como saúde, comunicação e serviços públicos, entre outros. E quanto à educação infantil: o uso de celulares, internet e computadores é benéfico ou prejudicial?

Os dispositivos móveis já estão profundamente inseridos na vida das crianças. Em 2008, mais de 10% das crianças com 4 ou 5 anos já usavam seu próprio celular. E a tendência é aumentar. Apesar de projetos de cunho educacional em vários países pelo mundo, como Nigéria, Japão, Chile e Reino Unido, o celular ainda é subutilizado para esse fim e olhado com desconfiança.

Entre as possíveis aplicações, existem exemplos nos quais ele é usado para acelerar e estimular o processo de leitura; aumentar o tempo e o aproveitamento dos estudos; explorar pontos históricos locais usando as funções de fotos, áudio e vídeo, bem como o acesso a conteúdos próprios de museus, bibliotecas, zoológicos ou outras fontes educacionais. Entre as ferramentas e métodos para atingir esses objetivos pode-se citar o uso do GPS, sistemas gerenciadores de conteúdo, redes sociais e material multimídia com conteúdos didáticos diversos.

Os envolvidos com esses projetos defendem que todos os processos de aprendizado podem ser aplicados via celular: ouvir, observar, imitar, questionar, refletir, tentar, estimar, predizer, especular e praticar. E, ainda, que essas características permitem trazer o “mundo real” para a classe e vice-versa. Isso permite conectar o que se faz na escola e fora dela, reduzindo o abismo entre educação formal e informal, viabilizando o aprendizado em qualquer lugar e a qualquer hora sem que a criança precise esperar, otimizando sua atenção e proporcionando um aprendizado personalizado e mais significativo.

Mas existem questionamentos quanto à necessidade da tecnologia, além de uma preocupação com os possíveis danos gerados pelo seu uso. Uma outra corrente de pensamento defende que o desenvolvimento físico, social, emocional e intelectual só pode ocorrer num ambiente de interação presencial. A criança aprende observando e imitando gestos, falas e sentimentos de adultos e outras crianças com quem possui relações afetivas, algo impossível de reproduzir através de uma tela.

Existe também uma forte interdependência entre mãos e funções cerebrais. Na primeira infância, o desenvolvimento cognitivo acontece via exploração com os membros e sentidos ao fazer atividades manuais, provar, cheirar, tocar e escutar em “primeira mão” o mundo ao seu redor. O estilo de vida atual, no qual há uma disponibilidade limitada de espaços livres de brincadeira, contribui para aumentar o índice de obesidade e torna ainda mais importantes a incorporação da prática da atividade física e o livre brincar no cotidiano da criança.

Apesar da pressão crescente em introduzir mais conteúdos cada vez mais cedo, o processo de desenvolvimento cognitivo permanece constante. O excesso de informação e de opções disponíveis de entretenimento e consumo, na verdade, gera um estado depressivo na criança, mesmo naquelas que possuem condições financeiras de satisfazer os seus desejos. Sem considerar o fato de que parte do conteúdo é proveniente de empresas com interesse puramente comercial e efetivamente prejudicial às crianças.

Disciplinas artísticas mais subjetivas, como música, dança, pintura e teatro, são fundamentais para expressão e imaginação, mas têm recebido menos atenção por não poderem ter uma avaliação padronizada. Uma tendência que é reforçada com o uso da tecnologia na educação.

Em uma análise inicial, o antagonismo das duas posições apresentadas é óbvio, pois se traduz em ações contrárias: incluir ou não incluir o uso de celulares como ferramenta educacional para crianças. Entretanto, as motivações são similares: propiciar uma educação de melhor qualidade e tornar as crianças mais aptas a lidar com os desafios da vida adulta. Neste sentido, são visões de mundo diferentes que se traduzem em ações antagônicas para atingir os mesmos objetivos.

Por um lado, os defensores do aprendizado digital falam a “mesma língua” da cultura ocidental corrente. É um aprendizado voltado para a maximização das capacidades da criança, ampliando exponencialmente o volume de informações disponíveis, tornando-a mais apta a interagir em cenários diversos e se inserir no mercado competitivo.

Em contrapartida, o aprendizado desprovido de celulares está centrado na criança, suas capacidades e necessidades, independentemente do mundo construído ao seu redor, dessa forma questionando a própria realidade em vez de conformar a criança a se encaixar numa cultura na qual a “realidade virtual” e os relacionamentos com telas de celular são cada vez mais normais e vistos como equivalentes (ou até mesmo superiores) ao mundo natural.

Isso remete a questões de outra ordem. Que mundo esses modelos ajudam a criar? Qual modelo, caso adotado pela maioria, permitiria mais longevidade às pessoas e à sociedade? Os dois modelos reconhecem que os desafios que nos aguardam num futuro próximo são grandes. Mas qual deles produz pessoas mais aptas e dispostas a enfrentar esses desafios?

Este artigo foi publicado no dia 10 de fevereiro de 2016 na Gazeta do Povo. O autor é membro da Associação Grão Saber.